quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O menestral da angústia - Nelson Cavaquinho

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Quando eu me chamar saudade

Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora
Me dê as flores em vida
O carinho
A mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Toda manhã requer nova fé, nova crença
por-me sobre meus pés, sobre meus sapatos
estar de acordo

rever ciência e estratégias,
reserva de paciência,
os cadarços – pensar como estive
tantos anos em embaraço com eles

já não me confundo com direita e esquerda
a cicatriz sobre o peito me basta
no verde cruzo o asfalto

necessito ainda um contato íntimo,
mas não me demoro em demasia
se me descuido perigo estragar o dia
atrasado – abro a porta e consinto
Tanta beleza
Sutil e concreta
Tangível e tocante
Desvanece sempre
E sempre se prenuncia à consciência
Seu fenecer
É que é do seu mérito se esquivar
À força do que lhe é o puro espectro:
                                                           O desejante
Mas se fazendo sempre vivo e real
É o que impõe nosso levante contra o dia
Sempre inerte e renitente
                                        Esse mundo imenso
                                                                       Fora de nós.
Eu sei que a morte, essa coisa
                                                Aparentemente impossível
                                                                                   Virá
Sei que um dia vais quedar
                   Sob o peso inaudito de teus sonhos.
E se tudo se apagar por pelo menos um instante
Findará invariavelmente escuro para teus olhos. 
Teu coração batendo
Impune
Sulforoso como o mar
Imune detento
E a cidade toda
Uma intentona sem senso
Vazando do decalque do
Vento, imenso
Um desmoronamento

Como se fosse possível um astro negro e frio
Irradiando frieza
Como se fosse possível a escuridão e o frio
Elevarem-se à natureza
E a emanação dessas rosas murchas
Exalarem alguma beleza
Eis que a exasperação do vazio
E da fatuidade
Elevam o banal a status de grandeza
E expõe a sua fútil certeza
Como verdade universal
 

domingo, 11 de setembro de 2011

Que fazer
contra essas insinuações de abandono
tão antigas que hereditárias?

Contra esses abortos imaginados
Contra esses partos insólitos

Ah! Essas saudades uterinas
Esse seio que nos foi negado

A canção

Cada vez que se canta
Se repassa o vivido
Embora o vívido do que havia ali
A coisa mesma
já não seja tanta
Sê já ela do ocorrido
Uma lembrança.

Se, retesada de ressentimento,
é ao mesmo tempo e doutrolado
Um orgulho grande
Que se agiganta
Num orgulho condoído
E vaidoso da própria farça
Avimensa e branca
Alçada da vida
Vivente ainda
No que seria a sua vizinhança.
Espera obter naquilo que alcança
Ainda a sua força viva