quinta-feira, 30 de junho de 2011

FELICIDADE


Quando souber de ti, quando tiver o teu corpo
Escreverei uma elegia à tua lembrança
Dançarei qualquer dança em memória de ti

DISPERSÃO


Ah, essa transcendência inventada
Essa fuga ensaiada
Essa dor extorquida
Essas coisas áreas
Que estão a me dissipar

RECREIO


Entre um golpe e outro de desespero
ensaio uma calma indefectível

Eu multiplico vozes
Sou valsa, choro e multidão
Sou mau agouro, febre terçã,
Que queima
E e só torpor, sofreguidão
Toda paz
Todo passatempo
Mínimo recalque
Instantâneo despudor
Impudicícia
Desespero violáceo
da tarde
cuando
meu corpo
em dessuetude
Nostalgias pela manhã
e esquecimento
em vastos quartos
Na cama vazia ou na mesa
Onde o frio de forma mais recorrente
Incandesce a alma acesa






A manhã se esmera
No verde da relva

Naquilo que brota
Recolhendo as suas raízes

Em toda força extraída
Do gesto que retrocede

E Estrugiu na madrugada
Em cinzas dispersos

E em brilho oculto
Reclusos trilhos

Mãos abertas
Para fulgores ásperos

Nada restringe
Tudo reenvia

Ao centro da violência
Ao fogo da distância

Depois de nascituro
Novo esquecimento e ânsia

Espera naufragar de novo a voz
E find’aurora o dia avança

Até sofrer as evasões da luz do dia
Lastrear a cor dessas persistências

E entreter à própria luz;
intermitências

E em tudo esse mesmo fogo atroz
Que tudo repele e irmana
É ainda a tua imagem
que está a embalar a minha oração
quando esse deus-fantasma
me sobrevoa

TRANSCENDÊNCIA

Me transporto para um mundo mais fluido
Quando canso de não transpor
a barreira irregular dos teus dentes

E você nem pressente a languidez
dessa coisa que tentas possuir
como se fosse carne

A ROSA UBíQUA

Pode-se admirar uma rosa
Pela maciez de suas pétalas
Pressentir na sua textura a
Pele do vindo fruto

Pela firmeza de seu caule
Pode-se adentrar sua estrutura
Pela nervura de suas folhas
Perder-se na sua ubiquidade



Estás só
com a vasta noite
não morreste
ainda
sobrevives
sobre a lide
de construir escunas
te entregas, resistes
mas são escunas impossíveis
de se navegar sobre elas...
ou impossível tornou-se o mar.

sábado, 25 de junho de 2011





Em vão
tenho me debatido
nessas noites sem luares
contra teu peito nu e
teus olhos inacessíveis

e em todos esses sóis apagados de fadiga,
e em todos esses girassóis sem compasso
brilha ainda minha resignação,
mas meu coração bate agora em teu pulso
e é tão aflito esse impulso de vida em teu braço
tão estranho que a vida me vibre assim
nesse membro de terra e aço



O ANTI-ZENON

Deixem-me caminhar
Esse é um desejo que se retroalimenta em mim
Como o próprio amor à vida

E pelo caminho me alegrarei
Quando houver motivo
E aceitarei a tristeza de braços abertos
E assim tudo será vasto.

Quero seguir em frente (em frente?)
Bem, ao menos caminhando, como é certo que vou agora
Mesmo com esse passo trôpego e sem destino
Caminho para que minhas pernas se afeiçoem ao seu natural
E para que o meu corpo saiba mais sobre o movimento.
Vou assim sem dar conta no que em mim é falta ou desperdício

Aldemir Martins - O Gato Azul




Onde está o gato?

Sentimos sua falta de repente
É que os ratos se multiplicavam...
Mas quem precisa de gatos para ratos
Hoje em dia.

Sua evocação moderna é uma mera
Faculdade associativa e nostálgica

O que nos remete ao gato
não é a sua natureza mística,
mas apenas seu destino trágico

Nosso gato foi perder-se nas mãos do destino
E o mundo é grande com suas avenidas
O mundo é complicado com seus tóxicos e barbitúricos
O mundo é perigoso com suas gatoeiras
E a maldade dos homens
Mas ele quis se perder
Conhecer outros passos
Outras vassouras
Roçar em outras pernas
Espalhar sua carência pelo mundo

Não vejo mais seu espreguiçar:
Felicidade obesa
Pois é...a curiosidade matou o gato

- e nem sua fecundidade me trará
outro bichano no regato

Adão e Eva - Tamara De Lempicka





Navegarei no barco silente do teu corpo
como um naúfrago,
com a sofreguidão
de um melancólico insone

Na incongruência das nossas bocas
Quero alcançar o ponto do teu corpo
onde a dor é finda
Onde só há prazer


Oh Romênia distante
Sei hoje como bom romântico esclarecido
Que teu Danúbio, em verdade, não é azul
Mas ainda assim duvido

Não sei o que há entre mim e ti
Senão a mesma distância
De mim a mim
Se haverá em ti ainda
Sangue, mistério e misticismo


Com a paciência fibrosa do destino
algo de diabólico e cínico
reescreve a trama dos teus dias futuros
com a matéria dos teus sonhos de menino 



Lembrando de O Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder...Nesse filme, de estilo noir, Billy Wilder mostra como o destino vai ser complacente e realizar os sonhos de seus personagens, Norman Desmund, uma atriz do cinema mudo que ficou esquecida depois do "cinema falado" e sonha com a volta por cima; e Joe Gillis, um playboy oportunista que só quer ter uma casa luxuosa com piscina. Bom o destino dará a eles o que eles querem; não exatamente da forma como imaginavam, é certo, mas, paciência não é mesmo! Como diria Oscar Wilde, "há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos."

quarta-feira, 8 de junho de 2011



Fazer ecoar a voz ou
escutar o sussurro?
Esse silêncio indeciso
entre o grito
e o gozo

A escolha às vezes parece
não está em nossas mãos
A escolha a nos escolher?
Mas haverá culpa sempre
Há de haver
Por mais que a decisão
nos venha
quando algo em nós
está a dormir

quinta-feira, 2 de junho de 2011




Descansa no meu corpo
Como a ave cansada de voar
Descansa sobre o meu corpo
Decanta essa angústia
Dá-me a tua ânsia
E esquece como quem morre
Fenece como quem sofre
Demores sem relutância

Deixa que eu te ame
Que eu te devore
A dor
Como quem quer transformar
O embate vão das coisas
Em torpor

Como quem destila
O velho sangue turvo

Deixa que eu te devolva o ar
Que eu te renove as asas
De fuligem impregnadas
Para que possas novamente voar

Que eu padeça minha alma
Em teus nervos
Para ficar como marca estranha
No eflúvio que emana
Da tua alma
Até a tua última entranha

quarta-feira, 1 de junho de 2011

MÁRIO FAUSTINO - O HOMEM E SUA HORA


À Mário Faustino

Seria preciso dormir com os teus olhos
Noites perdidas
Sem fim
Imerso
Na tua última imagem
No que restou da tua presença
Para poder configurar o espectro dessa tristeza
Para se aperceber do teu sonho medonho
E dessa insidiosa paixão.

LE MENAGE PAUVRE - PICASSO 1903




Intuição


Pressentir dentro da casca
                                    das coisas
Esse recuo inesperado
Esse fogo inerte, esse calor
                                    impassível


Perda

Trago comigo um lastro de tempo ou
de qualquer coisa que se esvai
E não sei o quinhão exato que me coube ou
quanto ainda me resta.
Apenas sinto que se esvai entre os meus dedos e
ninguém poderá admoestar-me
pela realização de qualquer trabalho inútil
nem condenar-me
por um grande erro ou
omissão
Se eu estou o tempo todo atento
a qualquer coisa que existe em mim
e que se esvai entre os meus dedos.