quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O menestral da angústia - Nelson Cavaquinho

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Quando eu me chamar saudade

Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora
Me dê as flores em vida
O carinho
A mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Toda manhã requer nova fé, nova crença
por-me sobre meus pés, sobre meus sapatos
estar de acordo

rever ciência e estratégias,
reserva de paciência,
os cadarços – pensar como estive
tantos anos em embaraço com eles

já não me confundo com direita e esquerda
a cicatriz sobre o peito me basta
no verde cruzo o asfalto

necessito ainda um contato íntimo,
mas não me demoro em demasia
se me descuido perigo estragar o dia
atrasado – abro a porta e consinto
Tanta beleza
Sutil e concreta
Tangível e tocante
Desvanece sempre
E sempre se prenuncia à consciência
Seu fenecer
É que é do seu mérito se esquivar
À força do que lhe é o puro espectro:
                                                           O desejante
Mas se fazendo sempre vivo e real
É o que impõe nosso levante contra o dia
Sempre inerte e renitente
                                        Esse mundo imenso
                                                                       Fora de nós.
Eu sei que a morte, essa coisa
                                                Aparentemente impossível
                                                                                   Virá
Sei que um dia vais quedar
                   Sob o peso inaudito de teus sonhos.
E se tudo se apagar por pelo menos um instante
Findará invariavelmente escuro para teus olhos. 
Teu coração batendo
Impune
Sulforoso como o mar
Imune detento
E a cidade toda
Uma intentona sem senso
Vazando do decalque do
Vento, imenso
Um desmoronamento

Como se fosse possível um astro negro e frio
Irradiando frieza
Como se fosse possível a escuridão e o frio
Elevarem-se à natureza
E a emanação dessas rosas murchas
Exalarem alguma beleza
Eis que a exasperação do vazio
E da fatuidade
Elevam o banal a status de grandeza
E expõe a sua fútil certeza
Como verdade universal
 

domingo, 11 de setembro de 2011

Que fazer
contra essas insinuações de abandono
tão antigas que hereditárias?

Contra esses abortos imaginados
Contra esses partos insólitos

Ah! Essas saudades uterinas
Esse seio que nos foi negado

A canção

Cada vez que se canta
Se repassa o vivido
Embora o vívido do que havia ali
A coisa mesma
já não seja tanta
Sê já ela do ocorrido
Uma lembrança.

Se, retesada de ressentimento,
é ao mesmo tempo e doutrolado
Um orgulho grande
Que se agiganta
Num orgulho condoído
E vaidoso da própria farça
Avimensa e branca
Alçada da vida
Vivente ainda
No que seria a sua vizinhança.
Espera obter naquilo que alcança
Ainda a sua força viva

Ligítio do poema

Como cercar a solidão de palavras?
E que todas bem engendradas nesse
Cárcere vernáculo
O que sobra no espaço que elas encerram?
E no tempo que congelam?
E quando querem atravessá-las
rumo a que se vai? O que se intenta?
Não há nisso paz de utilidade alguma
E ao acrobata insatisfeito o que resta,
o ritmo - corpo místico da palavra roubado à música?
O que se distingue da própria boca no beijo?
o que sobra da palavra no verso?

Indestrutível


A borboleta passou a noite inteira
com uma beleza de morte vindoura
na contiguidade de suas asas

Sua sombra dançou à sua volta
Morreria de inanição e ausência de memória.
O tempo cresparia de uma só vez a lassidão em suas células.
Se assim permanecesse...
Na contemplação muda de sua sombra.
Como eu, preso à sua imagem cada vez mais pálida
No cansaço de minhas pálpebras

Mas eu poderia a qualquer momento levantar-me
E abandonar aquele idílio imagético
E esquecê-la
E deixá-la
Viver por si só
O meu olhar em nada lhe constrangia?

Nem sequer havia se prostrado ali
Para que eu a observasse?

A minha superioridade
Estava em mim
Pelo fato de eu saber-me
                                       Homem
E pela convicção que em mim se adensava
De que a beleza em suas asas
Existia para o bem dos meus olhos
E que a borboleta não morreria,
Permaneceria...
Presa à parede
Na contemplação muda
De sua sombra...
Indestrutível.

Imprecisão

 
Eu passo a dor à frente
Como o resquício último do dia
Essa grande suportada
Depois esquecida
E que foi ainda suportável
Não foi o imponderável
Não foi a morte
Mas algo morreu

O amor também passamos ao novo dia
Esse Dia, outra promessa

Por que suportar tudo isso?
Por que não suportar mais um pouco?

Com que balança pesar o Amor, a Dor?
Com que tonalidades pintar a morte?

SÓLIDO


TU
AQUI
A SÓS
COMIGO
IMENSO SORRISO
                           
SÓ MEU DESCOMPASSO
COM O DESAVISO
AVISTA A TUA
CHEGADA
JANGADA DISTANTE
QUE NADA
POR TODO INSTANTE
EMARANHADO
DA TUA AUSÊNCIA
                                    ME ESCAPO
INSTADO POR HORAS A FIO
ISCO NO COPO VAZIO UM DESAFIO-
MEU PARTO DE HORAS:
PORTO DE SOFREGUIDÃO MALSÃ
INSOLAÇÃO DA NOITE
NEBULOSA MANHÃ














Quantos mundos é capaz de destruir o poeta?
ou engendrá-los sob a insígnia do seu ensejo?
quanto mais o mundolhe impôe suas arestas
mais insiste o poeta na hipóstase do sonho
como projeto de vida e devaneio.


Liberto de qualquer receio ele pretende construir
um intento de plano-palavra que desloque o sentido
da palavra desejo.
Pesamos nosso silêncio
nos entreolhamos
um único tremor
nos percorreu (de que ponto partiu,
do seu corpo,
ou do meu?)
sensação unívoca

afastei da minha voz
o escarceu da tua boca

nada se ouviu
o silêncio nos acolheu
ficamos mudo,calados
quando retornamos sorrimos
extasiados

esse silêncio
que nos percorreu
como um beijo
por algo de corporal
que se impôs no caminho

como uma flor sem pétalas e sem odor
uma flor de espera vermelha e aflita
Àspera, sem espinhos
há flores ressequidas que buscam em mim
a constatação de sua sorte

sei que além de tudo isso
existem ainda outros dísticos, outras distâncias,
outros muros intransponíveis, outras infâncias.

sábado, 10 de setembro de 2011

Essa coisa que nos acompanha
desde bem cedo,
ou o medo adquirido
que nos vive agora?

Isso de que, às vezes,
num acesso, planejamos
nos livrar,

abandonar em um muturo
ou depositar em um banco
de praça

para que algum desavisado
venha violar seu conteúdo
obscuro

e noutro dia alarmados
lermos no jornal a notícia
do escândalo

toda a cidade aturdida
especialistas, comentadores,
pareceres e controvérsias

mas a avidez com devassariam seu interior
a rapidez com que teceriam associações
com que elaborariam sentidos

nos decepcionaria
toda nossa hesitação desfeita em mágoa
nosso segredo viraria objeto de análise
nada se revelaria
Quando vim ao mundo
já estava assim
dividido, cindido, indiferente
a avidez da juventude
a me perguntar
o que haverá de mim
nessas gentes?
Olhos, vastidões e sonhos
de amplitude a me povoar
Eu impregnado de solicitudes
e a solidão cobrando, por fim,
alguma atitude
flores ressequidas buscavam em mim
a constatação de sua sorte
e eu impávido, mudo
como que acordado da morte

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Nisso que apregoo
Sigo impresso
nesse papel verso e reverso,
poesia e representação
Me doo e me vendo
sou a usura de mim mesmo
embora soe controverso
o usufruto mais inútil e perverso
nefando intento
Me perfaço me inverto
para tentar verter essa dor
Mas a dor é minha represa
minha represália contra a morte.

Esfinge


Esses dois olhos imensos no espelho
Me perscrutando vivos
Donde vens?

A tua imagem não me convém
E, no entanto
sou teu

Como quem se entrega ao abandono
De ter nascido sob o signo do trágico
me invento para a morte.
Para safar-me mais um pouco
Vivo adiado.

MEDO

Onde cansada de imolar
a morte
amola a sua foice

A Primeira Noite

O único parto que fora
realmente parto
E o filho que veio
sem choro, farto
veio já velho
Uma louca dizendo
ser seu
foi preciso velar
por ele a noite toda em claro
a primeira noite
para que não o levasse
ao mundo
a loucura
reivindicando
a sua maternidade

antes da primeira palmada
bem sei que sorri
esse sorriso desabrido
nascido do frêmito
da constatação:

É preciso nascer
Antes que morra
a constelação
Que nos assegura
O ânimo



A arte que o teu sonho desvela
consiste em abrir vastas velas
para enfim naufragar

Conversão

Parece que agora vai pôr fim a tudo a tristeza
A dama negra pôs-se desnuda,
e nem assim é possível discernir
seus contornos
Eu dissipo então a crença
que escondia o medo
e me detinha de agarrar-me a ela
de forma definitiva
De alcançar a salvação
Pelo seu contrário,
de elevar o medo ao seu paroxismo
Já não mais nos salva nem mesmo o sacrifício
O caustico prazer do flagelo
Nada mais poderá fazer por mim a solidão
Findo o tempo da contemplação
Nenhuma evasão será perdoada
Nenhum traço de beleza na tez do amor
Só a sua violência a nos consumir
Como num ritual
Estou nascendo pr’outra fé...
Enquanto acendo um cigarro
aos pés do holocausto
peço que o fogo dessa chama
nos renasça pra vida.

INÚTIL

Um cavalo de cascos doídos
Obrigado a marchar mesmo indeciso
Por não mais servir ao sacrifício.

Insólito


Quando caminho nu
nesse estreito corredor
entre a excitação e o cansaço -
e esse dois guardam o mesmo assombro -
entre a queda e o arremesso
sempre surpreendo a natureza bruta
de algum fato insólito
que identifico como
parte de mim
pelo calor que dele se desprende
passo semanas aturdido
preso ao que me indicam esses miasmas
sem que possa adentrar a sua estrutura
Até que por fim o comum se restitui
e com seu peso, com as suas correntes
vai tecendo os fios do esquecimento
Mas, ainda que a esperança se desfaça
e fique só a distância - 
isso que chamamos lembrança -
Sei que caberão dentro de mim
todas as coisas esquecidas
e desacreditadas do mundo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Na dor toda determinação
é vivida como impotência
O otimista vulgar transforma toda a realidade
em fonte de seu gozo, mas em geral
perde feio para os desiludidos
em matéria de roubar prazer ao imundo.
Os arcanos da auto-ajuda
são os lacaios mais desonestos desse mundo.

Para ser feliz é preciso
ser justo, simples, preciso
Os infelizes querem sempre
o sem-limite, o sem-nome,
a desmedida
Mas em nosso tempo
tudo é só um Deus distante
ou a crueza mais repulsiva
até parece que mesmo o homem
que se quer ainda prático e íntegro,
tornou-se o mais tresloucado
dos delirantes
basta, por exemplo,
ao ainda recente no cinismo,
que aceite o seu quinhão de torpezas
para que seja integrado no seu motor
há também alguns a quem a realidade
repugna
e que pedem tão somente
serem deixados a si mesmos
a esses cabe, às vezes, recursos
para que a muito custo
sejam abandonados a seus monstros
ou à fantasia de serem de todo
dispensáveis 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

PRADO DAS RENÚNCIAS


Existe um prado das renúncias
onde todo homem que já foi jovem
chega um dia
para depositar a sua juventude
o lastro de desilusões que lhe coube
os amores que se cumpriram
e soçobraram em lembranças
o rebotalho das lágrimas...
num tempo posterior ao amor,
onde também a violência
não tem mais cor

é cinza e negro e opaco
a violência era uma ânsia rubra
dilacerando um coração devoto



sábado, 27 de agosto de 2011


Eu, Abreu de Caio Fernando a Casimiro,
monstro siderado entre Eros e Morfeu

Eu, aedo inconsútil
nessas imprescrutáveis horas
privado de paz,
exilado de auroras.
Uma tormenta me assolava
desde o meu antigo túmulo
enquanto dormira o leviatã
era sempre um mar sem orla
e o céu como um dínamo incendiado
na sua abóbada
a calma sanguinária, precisa,
soprando do oeste com a brisa,
e o corsário acariciando a sua lâmina
o barco saciando a sua quilha
os olhos injetados, fechados
para sentir-se inteiro
no tato
e de repente,
a alma hirta,supressa

a cor do despertar
nos escapa como o próprio amanhcer
nasce com o cúmulo de nuvens indistintas

desloquei o escarcéu da tua boca
da minha palavra e,
na balada que eu compus
os corceis que se debastavam
perfazem a minha morada,
e nela,
são perfeitos

Flaneur

Vagar pelas ruas
pela solidão desses
esqueletos de ferro
Visitar o centro da cidade
em dia de feriado
saber do silêncio de cada
casa e loja,
e de como são poliglotas no seu
silêncio
flanar sobre a cidade nua
com suas prostitutas
e seus viadutos
Gozar nas ruínas do seu corpo
Não ter com a morte nenhum pacto
andar intacto pelas ruas


JUDAS

Vaga que a noite é grande
e não sabe de ti
Vaga, pois o mundo te perdeu
na sua entropia
Teu Deus já esqueceu do engano
que cometia
quando te concebeu
Não corra
Que o teu crime
não se perdoa
E ademais, não vale a pena te punir
pela parte suja que te cabia
Instrumento ruim da história
(ruim como todo instrumento da história)
As profecias te necessitavam para fazerem-se verdade
Vai por essa noite em que a imensa voz do medo
Reverbera
Tudo parece inútil
Mas justo você
Parece saber à tudo
Extrair algum prazer
Quem dirá que não houve afeto mesmo no beijo de traição?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011


E há de se adentrar essa tormenta
não há olhos prontos para isso
e apenas ao que está prestes a fundir-se
se concente
não há fulgores que possam durar
não há com que ruminar celeste
é preciso a tudo entregar
seu mínimo dízimo
embora tudo nos soe ínfimo
é preciso tentar um passo
com a nossa voz
ou com esse sussurro
lasso e tímido
Estou fogo
na fria manhã
um fogo frio, embora também
queime, queimo como gelo
queima
sem alarido sem artifício
com a minha pele contígua
a essa manhã
nas tardes desfraldadas
como velas
em que a areia
nos erode
e a fronde do adeus
permanece imóvel
signos inscritos na pele
nos imitamos a voz
estranhos mimetismos
de repente nos atravessam
estam a deslizar
para qualquer parte do nosso corpo
tão próximo,
mas quando o vórtice vocifera
a ilha inaugurada
se dilacera
a tarde que se perdeu no que era
o osso e o nosso
vira carne e fosso
é do preclaro
que o vento sopra
a noite no olvido

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Na mesa do bar,
tímido e em sigilo
ele espera
Pensarão ser solitário
que ao melífluo solilóquio
se entrega
É cedo, mas logo o barulho
será maior que sua vergonha
e nada mais será possível
logo o álcool irá sobrepor
a sua correnteza ao sangue
e nada mais será legível
a grafia se tornará tortuosa
É preciso o broto do poema
logo lhe sangrará brutalmente o peito
e nada mais lhe será necessário


IO - 212

sábado, 13 de agosto de 2011


Em tudo tua presença,

no mesmo gesto a salvação e a queda.

Absolutamente


Esse tanto de mim
que se vai sem que
a ninguém se apresente
e aquele outro tanto
que se vai, mesmo deconhecido por mim
e tudo que viria a ser
sem que nem sequer pressentise
a morte mata
absolutamente
não só esse corpo mirrado

Madalena


De passear pelas ruas
despida
Madalena
sentia um profundo prazer
e de jogar beijo aos meninos
e pão aos peixes
nunca quis tomar lugar
entre as gentes
com roupas e casas elegantes
nunca quis adentrar os domingos
com um homem reto
entre o braço e o colo ondulante
e, no entanto, sempre os cotovelos
passando dobrados,
sempre a noite lhe chamando
E ela também passando passava
seu sorriso carregado de tão leve desencanto
sem se valer da fúria que lhe cabia
nunca foi dessas de se orgulhar da própria melancolia
ou dessas para as quais é a renúncia
a forma mais vívida e profunda
de se desejar algo
mas trazia naquele sorriso
detrás daquela dor tão breve
um sonho tão bem resguardado e intenso
que poderia a qualquer momento
absorver toda a paisagem inerte.

Um corpo não tem vida
sem os olhos de outro corpo
para fitá-lo
para percorrê-lo
feito raio
sobre a pele
e eclipsá-lo
é assim que se dá
sermos arrebatados
nossos corpos
renitentes, lado a lado,
como dois cãezinhos ruidosos
de repente
obnubilados
Tú és um homem triste
vê-se pela curvatura
das tuas costas,
pela umidade nos teus olhos e
pelo peso em tua voz
Vê-se quando sorri e
quando o desalento
toma de assalto
o teu timbre
ou quando o teu esmero
em parecer feliz
denuncia tua cena
Falta no teu gesto
a leveza da inocência
ou da disponibilidade
Tú não, não estás disponível
não espera
nem se entrega a Deus
e nada pode
contra esse mundo
que resiste
tú que és um homem triste

Á infâcia sem fantasias
ultrapassou a juventude sem alarde
a maturidade chegou com a sua espada em riste

A imagem do vasto chão impreciso
me anuncia o fato da chuva
Eu tenho o dom de induções inversas e inúteis
A arte atual: silogismos banais, tautologias
Esse apuro para as coisas infinitesimais
Um tratado sobre a sedimentação do pó
Vejo o sol, é dia
A minha solidão demuda
quando estou só
Tudo é o mesmo,
mas outro ainda,
adeus
Tudo pode fechar-se
sobre si mesmo:
a morte tem pés análogos


Dorme um menino insone
Não dorme há anos
Cuido para que não perturbem
o sono desse menino
O que aconteceria se acordasse?
Temo profundamente
A organização das coisas
Que sensações pode lhe despertar
no interior do seu sonho, a luz
ao afetar a sua retina?
Mesmo dormindo
A luz do sol pode pintar de vermelho
as suas pálpebras
E eu não sei que idéia de vermelho
Guarda agora o seu coração.
Cansado de ser homem
e de ter desejo
vaga nas fendas profundas
e enternecidas feito mães
seu passo é muito mais carícia
que movimento
o açoite do vento lhe distrai a pele
Melhor esquecer
esquecer dançando
E como todo sábio animal cuidar da própria fome
com algum método

É que eu me devastei por todos esses caminhos
e agora preciso errar sem pressa

Avesso

Em mais e mais escuro
e entre brumas me adenso
o mar que navego é tenso

transcrevo no que divago
a minha vaga impressão
sobre mim

Aquilo que me sonha
quando naufrago
se despede
quando eu renasço

e o sonho que sonhei
e não lembro
não continua no mesmo espaço
mas me sonha mesmo assim

Eterna Ilusão


Ah! Esses amantes que amam sem instrumentos
são caçadores indefesos, vão felizes por onde
se certificaram que não encontrarão a fera

São pobres coitados,
não tem por onde adentrar o amor:
esse templo indevassável
constroem o amor como uma pirâmide

Depois, mais velhos,
ficam a lembrar
meu Deus, como era grandiosa a construção
quem sabe! tivesse adentrado,
ali seria rei

e, de novo inocentes, formulam nova ilusão
quem dera Deus, podesse voltar à juventude,
com as chaves que hoje detenho,
seria pleno.












quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Em meu peito
algo de frio bate
há um mudo baque de estrelas
há algo de estreito no rio
que balbucio
apenas um fio de água
num leito vazio
que corre na noite
insuspeito

é um rio, embora estreito
que nasce no meu peito
há peixes tentando reproduzir
um novo embate
ao brilho que desfazem ao retinir
de suas escamas
contra as pedras que debastam
ao refulgir
há esferas fundas de tempo
que os dias perfazem
há longas esperas
que as noites encerram


Foi numa noite dessas
que achei esse fio
esse longo fio
que enovelo e enlaço
as suas volutas me entrego, aceito
quando me deito nesse leito frio
e as águas tranquilas desse rio
devasso.


em seu leito límpido
não há seixo, nem caniço, lasso
no rio estreito que nasce no meu peito
e morre no teu abraço.
O mundo todo
feneceria com o teu piscar
a força de suster e destruir do teu olhar
todo esse teu fanatismo profano

de olho a olho
teu deus se esmera
na perfeição

meu deus cristão
enrubesce; estremece
de pelo a pelo,
vibra celeste
na tensão da imagem
num ímpeto ambíguo
de amar as distantes distâncias...
"não há via larga rumo à noite"
nessa noite em que tudo que é belo
retorna como ferocidade


Se
repouso no que detenho
me desânimo

Se
empenho no que destroço
avanço?

mal posso dizer-me nu
despir-me não alcanço
de-fender-me também não posso
De noite na cama
fecho os olhos na penumbra
e fico esperando
distinguir a tua sombra
no escuro perfeito
em mim

espero o mar
trazer prece aos meus ouvidos

disperso a minha mão pelo ar
para dar adeus às coisas fugidias
e ponho-me a sonhar
com a tua boca

NENHUMA DÚVIDA

Meu amigo
não tem segredo nenhum
não tem dúvida
não tem medos

Meu amigo muito amado
não entende nada
do meu mundo

sua ingenuidade simples
sua onipotência sem afetação
me agrada, até mesmo a mim
com meus ares de heroísmo trágico

é que eu não sei como ele combina
o leve e o pesado 

Meu amigo muito amado
não entende nada
de mim

É preciso
seguirmos juntos a estrada
que sonhamos trilhar,
ou a possível...

mas é que, às vezes,
meu amigo
entra sozinho no mar
parece pensativo
parece-me que a dúvida
quase chega a cingir-lhe
o peito
O verbo de Deus: o Verbo
é uma força ambígua
concordo com Epicuro
o mundo nasceu de um desvio
mais tarde Freud descobriu
o verdadeiro nome do clínamen:
sublimação, a grande demiurga,
mas aí Deus já estava morto
não foi Nietzsche quem o matou
apenas reconheceu o cadáver
mas tudo tem que parecer
meio policialesco (a culpa
é uma grande estrategista, e
ao mesmo tempo, escritora de romances
policiais e novelas mexicanas)
o próprio Nietzsche enlouqueceu depois
só de pensar na possibilidade
do mundo que ele propôs
tornar-se realidade
felizes de nós
se ainda não enlouquecemos! 
A FLOR DA PELE

À flor da pele
é um cacto ressequido
pelo sol do desejo
e um grunido de desespero
e horror
algo que pretendia ser feroz,
e que, ao final, é só medo
o que seria sublime
mas nos escapou
diz-se à respeito
de quem está prestes
a sofrer calafrios
que esta é a flor da pele

quinta-feira, 30 de junho de 2011

FELICIDADE


Quando souber de ti, quando tiver o teu corpo
Escreverei uma elegia à tua lembrança
Dançarei qualquer dança em memória de ti

DISPERSÃO


Ah, essa transcendência inventada
Essa fuga ensaiada
Essa dor extorquida
Essas coisas áreas
Que estão a me dissipar

RECREIO


Entre um golpe e outro de desespero
ensaio uma calma indefectível

Eu multiplico vozes
Sou valsa, choro e multidão
Sou mau agouro, febre terçã,
Que queima
E e só torpor, sofreguidão
Toda paz
Todo passatempo
Mínimo recalque
Instantâneo despudor
Impudicícia
Desespero violáceo
da tarde
cuando
meu corpo
em dessuetude
Nostalgias pela manhã
e esquecimento
em vastos quartos
Na cama vazia ou na mesa
Onde o frio de forma mais recorrente
Incandesce a alma acesa






A manhã se esmera
No verde da relva

Naquilo que brota
Recolhendo as suas raízes

Em toda força extraída
Do gesto que retrocede

E Estrugiu na madrugada
Em cinzas dispersos

E em brilho oculto
Reclusos trilhos

Mãos abertas
Para fulgores ásperos

Nada restringe
Tudo reenvia

Ao centro da violência
Ao fogo da distância

Depois de nascituro
Novo esquecimento e ânsia

Espera naufragar de novo a voz
E find’aurora o dia avança

Até sofrer as evasões da luz do dia
Lastrear a cor dessas persistências

E entreter à própria luz;
intermitências

E em tudo esse mesmo fogo atroz
Que tudo repele e irmana
É ainda a tua imagem
que está a embalar a minha oração
quando esse deus-fantasma
me sobrevoa

TRANSCENDÊNCIA

Me transporto para um mundo mais fluido
Quando canso de não transpor
a barreira irregular dos teus dentes

E você nem pressente a languidez
dessa coisa que tentas possuir
como se fosse carne

A ROSA UBíQUA

Pode-se admirar uma rosa
Pela maciez de suas pétalas
Pressentir na sua textura a
Pele do vindo fruto

Pela firmeza de seu caule
Pode-se adentrar sua estrutura
Pela nervura de suas folhas
Perder-se na sua ubiquidade



Estás só
com a vasta noite
não morreste
ainda
sobrevives
sobre a lide
de construir escunas
te entregas, resistes
mas são escunas impossíveis
de se navegar sobre elas...
ou impossível tornou-se o mar.

sábado, 25 de junho de 2011





Em vão
tenho me debatido
nessas noites sem luares
contra teu peito nu e
teus olhos inacessíveis

e em todos esses sóis apagados de fadiga,
e em todos esses girassóis sem compasso
brilha ainda minha resignação,
mas meu coração bate agora em teu pulso
e é tão aflito esse impulso de vida em teu braço
tão estranho que a vida me vibre assim
nesse membro de terra e aço



O ANTI-ZENON

Deixem-me caminhar
Esse é um desejo que se retroalimenta em mim
Como o próprio amor à vida

E pelo caminho me alegrarei
Quando houver motivo
E aceitarei a tristeza de braços abertos
E assim tudo será vasto.

Quero seguir em frente (em frente?)
Bem, ao menos caminhando, como é certo que vou agora
Mesmo com esse passo trôpego e sem destino
Caminho para que minhas pernas se afeiçoem ao seu natural
E para que o meu corpo saiba mais sobre o movimento.
Vou assim sem dar conta no que em mim é falta ou desperdício

Aldemir Martins - O Gato Azul




Onde está o gato?

Sentimos sua falta de repente
É que os ratos se multiplicavam...
Mas quem precisa de gatos para ratos
Hoje em dia.

Sua evocação moderna é uma mera
Faculdade associativa e nostálgica

O que nos remete ao gato
não é a sua natureza mística,
mas apenas seu destino trágico

Nosso gato foi perder-se nas mãos do destino
E o mundo é grande com suas avenidas
O mundo é complicado com seus tóxicos e barbitúricos
O mundo é perigoso com suas gatoeiras
E a maldade dos homens
Mas ele quis se perder
Conhecer outros passos
Outras vassouras
Roçar em outras pernas
Espalhar sua carência pelo mundo

Não vejo mais seu espreguiçar:
Felicidade obesa
Pois é...a curiosidade matou o gato

- e nem sua fecundidade me trará
outro bichano no regato

Adão e Eva - Tamara De Lempicka





Navegarei no barco silente do teu corpo
como um naúfrago,
com a sofreguidão
de um melancólico insone

Na incongruência das nossas bocas
Quero alcançar o ponto do teu corpo
onde a dor é finda
Onde só há prazer


Oh Romênia distante
Sei hoje como bom romântico esclarecido
Que teu Danúbio, em verdade, não é azul
Mas ainda assim duvido

Não sei o que há entre mim e ti
Senão a mesma distância
De mim a mim
Se haverá em ti ainda
Sangue, mistério e misticismo


Com a paciência fibrosa do destino
algo de diabólico e cínico
reescreve a trama dos teus dias futuros
com a matéria dos teus sonhos de menino 



Lembrando de O Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder...Nesse filme, de estilo noir, Billy Wilder mostra como o destino vai ser complacente e realizar os sonhos de seus personagens, Norman Desmund, uma atriz do cinema mudo que ficou esquecida depois do "cinema falado" e sonha com a volta por cima; e Joe Gillis, um playboy oportunista que só quer ter uma casa luxuosa com piscina. Bom o destino dará a eles o que eles querem; não exatamente da forma como imaginavam, é certo, mas, paciência não é mesmo! Como diria Oscar Wilde, "há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos."

quarta-feira, 8 de junho de 2011



Fazer ecoar a voz ou
escutar o sussurro?
Esse silêncio indeciso
entre o grito
e o gozo

A escolha às vezes parece
não está em nossas mãos
A escolha a nos escolher?
Mas haverá culpa sempre
Há de haver
Por mais que a decisão
nos venha
quando algo em nós
está a dormir

quinta-feira, 2 de junho de 2011




Descansa no meu corpo
Como a ave cansada de voar
Descansa sobre o meu corpo
Decanta essa angústia
Dá-me a tua ânsia
E esquece como quem morre
Fenece como quem sofre
Demores sem relutância

Deixa que eu te ame
Que eu te devore
A dor
Como quem quer transformar
O embate vão das coisas
Em torpor

Como quem destila
O velho sangue turvo

Deixa que eu te devolva o ar
Que eu te renove as asas
De fuligem impregnadas
Para que possas novamente voar

Que eu padeça minha alma
Em teus nervos
Para ficar como marca estranha
No eflúvio que emana
Da tua alma
Até a tua última entranha

quarta-feira, 1 de junho de 2011

MÁRIO FAUSTINO - O HOMEM E SUA HORA


À Mário Faustino

Seria preciso dormir com os teus olhos
Noites perdidas
Sem fim
Imerso
Na tua última imagem
No que restou da tua presença
Para poder configurar o espectro dessa tristeza
Para se aperceber do teu sonho medonho
E dessa insidiosa paixão.