terça-feira, 30 de agosto de 2011

Na dor toda determinação
é vivida como impotência
O otimista vulgar transforma toda a realidade
em fonte de seu gozo, mas em geral
perde feio para os desiludidos
em matéria de roubar prazer ao imundo.
Os arcanos da auto-ajuda
são os lacaios mais desonestos desse mundo.

Para ser feliz é preciso
ser justo, simples, preciso
Os infelizes querem sempre
o sem-limite, o sem-nome,
a desmedida
Mas em nosso tempo
tudo é só um Deus distante
ou a crueza mais repulsiva
até parece que mesmo o homem
que se quer ainda prático e íntegro,
tornou-se o mais tresloucado
dos delirantes
basta, por exemplo,
ao ainda recente no cinismo,
que aceite o seu quinhão de torpezas
para que seja integrado no seu motor
há também alguns a quem a realidade
repugna
e que pedem tão somente
serem deixados a si mesmos
a esses cabe, às vezes, recursos
para que a muito custo
sejam abandonados a seus monstros
ou à fantasia de serem de todo
dispensáveis 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

PRADO DAS RENÚNCIAS


Existe um prado das renúncias
onde todo homem que já foi jovem
chega um dia
para depositar a sua juventude
o lastro de desilusões que lhe coube
os amores que se cumpriram
e soçobraram em lembranças
o rebotalho das lágrimas...
num tempo posterior ao amor,
onde também a violência
não tem mais cor

é cinza e negro e opaco
a violência era uma ânsia rubra
dilacerando um coração devoto



sábado, 27 de agosto de 2011


Eu, Abreu de Caio Fernando a Casimiro,
monstro siderado entre Eros e Morfeu

Eu, aedo inconsútil
nessas imprescrutáveis horas
privado de paz,
exilado de auroras.
Uma tormenta me assolava
desde o meu antigo túmulo
enquanto dormira o leviatã
era sempre um mar sem orla
e o céu como um dínamo incendiado
na sua abóbada
a calma sanguinária, precisa,
soprando do oeste com a brisa,
e o corsário acariciando a sua lâmina
o barco saciando a sua quilha
os olhos injetados, fechados
para sentir-se inteiro
no tato
e de repente,
a alma hirta,supressa

a cor do despertar
nos escapa como o próprio amanhcer
nasce com o cúmulo de nuvens indistintas

desloquei o escarcéu da tua boca
da minha palavra e,
na balada que eu compus
os corceis que se debastavam
perfazem a minha morada,
e nela,
são perfeitos

Flaneur

Vagar pelas ruas
pela solidão desses
esqueletos de ferro
Visitar o centro da cidade
em dia de feriado
saber do silêncio de cada
casa e loja,
e de como são poliglotas no seu
silêncio
flanar sobre a cidade nua
com suas prostitutas
e seus viadutos
Gozar nas ruínas do seu corpo
Não ter com a morte nenhum pacto
andar intacto pelas ruas


JUDAS

Vaga que a noite é grande
e não sabe de ti
Vaga, pois o mundo te perdeu
na sua entropia
Teu Deus já esqueceu do engano
que cometia
quando te concebeu
Não corra
Que o teu crime
não se perdoa
E ademais, não vale a pena te punir
pela parte suja que te cabia
Instrumento ruim da história
(ruim como todo instrumento da história)
As profecias te necessitavam para fazerem-se verdade
Vai por essa noite em que a imensa voz do medo
Reverbera
Tudo parece inútil
Mas justo você
Parece saber à tudo
Extrair algum prazer
Quem dirá que não houve afeto mesmo no beijo de traição?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011


E há de se adentrar essa tormenta
não há olhos prontos para isso
e apenas ao que está prestes a fundir-se
se concente
não há fulgores que possam durar
não há com que ruminar celeste
é preciso a tudo entregar
seu mínimo dízimo
embora tudo nos soe ínfimo
é preciso tentar um passo
com a nossa voz
ou com esse sussurro
lasso e tímido
Estou fogo
na fria manhã
um fogo frio, embora também
queime, queimo como gelo
queima
sem alarido sem artifício
com a minha pele contígua
a essa manhã
nas tardes desfraldadas
como velas
em que a areia
nos erode
e a fronde do adeus
permanece imóvel
signos inscritos na pele
nos imitamos a voz
estranhos mimetismos
de repente nos atravessam
estam a deslizar
para qualquer parte do nosso corpo
tão próximo,
mas quando o vórtice vocifera
a ilha inaugurada
se dilacera
a tarde que se perdeu no que era
o osso e o nosso
vira carne e fosso
é do preclaro
que o vento sopra
a noite no olvido

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Na mesa do bar,
tímido e em sigilo
ele espera
Pensarão ser solitário
que ao melífluo solilóquio
se entrega
É cedo, mas logo o barulho
será maior que sua vergonha
e nada mais será possível
logo o álcool irá sobrepor
a sua correnteza ao sangue
e nada mais será legível
a grafia se tornará tortuosa
É preciso o broto do poema
logo lhe sangrará brutalmente o peito
e nada mais lhe será necessário


IO - 212

sábado, 13 de agosto de 2011


Em tudo tua presença,

no mesmo gesto a salvação e a queda.

Absolutamente


Esse tanto de mim
que se vai sem que
a ninguém se apresente
e aquele outro tanto
que se vai, mesmo deconhecido por mim
e tudo que viria a ser
sem que nem sequer pressentise
a morte mata
absolutamente
não só esse corpo mirrado

Madalena


De passear pelas ruas
despida
Madalena
sentia um profundo prazer
e de jogar beijo aos meninos
e pão aos peixes
nunca quis tomar lugar
entre as gentes
com roupas e casas elegantes
nunca quis adentrar os domingos
com um homem reto
entre o braço e o colo ondulante
e, no entanto, sempre os cotovelos
passando dobrados,
sempre a noite lhe chamando
E ela também passando passava
seu sorriso carregado de tão leve desencanto
sem se valer da fúria que lhe cabia
nunca foi dessas de se orgulhar da própria melancolia
ou dessas para as quais é a renúncia
a forma mais vívida e profunda
de se desejar algo
mas trazia naquele sorriso
detrás daquela dor tão breve
um sonho tão bem resguardado e intenso
que poderia a qualquer momento
absorver toda a paisagem inerte.

Um corpo não tem vida
sem os olhos de outro corpo
para fitá-lo
para percorrê-lo
feito raio
sobre a pele
e eclipsá-lo
é assim que se dá
sermos arrebatados
nossos corpos
renitentes, lado a lado,
como dois cãezinhos ruidosos
de repente
obnubilados
Tú és um homem triste
vê-se pela curvatura
das tuas costas,
pela umidade nos teus olhos e
pelo peso em tua voz
Vê-se quando sorri e
quando o desalento
toma de assalto
o teu timbre
ou quando o teu esmero
em parecer feliz
denuncia tua cena
Falta no teu gesto
a leveza da inocência
ou da disponibilidade
Tú não, não estás disponível
não espera
nem se entrega a Deus
e nada pode
contra esse mundo
que resiste
tú que és um homem triste

Á infâcia sem fantasias
ultrapassou a juventude sem alarde
a maturidade chegou com a sua espada em riste

A imagem do vasto chão impreciso
me anuncia o fato da chuva
Eu tenho o dom de induções inversas e inúteis
A arte atual: silogismos banais, tautologias
Esse apuro para as coisas infinitesimais
Um tratado sobre a sedimentação do pó
Vejo o sol, é dia
A minha solidão demuda
quando estou só
Tudo é o mesmo,
mas outro ainda,
adeus
Tudo pode fechar-se
sobre si mesmo:
a morte tem pés análogos


Dorme um menino insone
Não dorme há anos
Cuido para que não perturbem
o sono desse menino
O que aconteceria se acordasse?
Temo profundamente
A organização das coisas
Que sensações pode lhe despertar
no interior do seu sonho, a luz
ao afetar a sua retina?
Mesmo dormindo
A luz do sol pode pintar de vermelho
as suas pálpebras
E eu não sei que idéia de vermelho
Guarda agora o seu coração.
Cansado de ser homem
e de ter desejo
vaga nas fendas profundas
e enternecidas feito mães
seu passo é muito mais carícia
que movimento
o açoite do vento lhe distrai a pele
Melhor esquecer
esquecer dançando
E como todo sábio animal cuidar da própria fome
com algum método

É que eu me devastei por todos esses caminhos
e agora preciso errar sem pressa

Avesso

Em mais e mais escuro
e entre brumas me adenso
o mar que navego é tenso

transcrevo no que divago
a minha vaga impressão
sobre mim

Aquilo que me sonha
quando naufrago
se despede
quando eu renasço

e o sonho que sonhei
e não lembro
não continua no mesmo espaço
mas me sonha mesmo assim

Eterna Ilusão


Ah! Esses amantes que amam sem instrumentos
são caçadores indefesos, vão felizes por onde
se certificaram que não encontrarão a fera

São pobres coitados,
não tem por onde adentrar o amor:
esse templo indevassável
constroem o amor como uma pirâmide

Depois, mais velhos,
ficam a lembrar
meu Deus, como era grandiosa a construção
quem sabe! tivesse adentrado,
ali seria rei

e, de novo inocentes, formulam nova ilusão
quem dera Deus, podesse voltar à juventude,
com as chaves que hoje detenho,
seria pleno.












quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Em meu peito
algo de frio bate
há um mudo baque de estrelas
há algo de estreito no rio
que balbucio
apenas um fio de água
num leito vazio
que corre na noite
insuspeito

é um rio, embora estreito
que nasce no meu peito
há peixes tentando reproduzir
um novo embate
ao brilho que desfazem ao retinir
de suas escamas
contra as pedras que debastam
ao refulgir
há esferas fundas de tempo
que os dias perfazem
há longas esperas
que as noites encerram


Foi numa noite dessas
que achei esse fio
esse longo fio
que enovelo e enlaço
as suas volutas me entrego, aceito
quando me deito nesse leito frio
e as águas tranquilas desse rio
devasso.


em seu leito límpido
não há seixo, nem caniço, lasso
no rio estreito que nasce no meu peito
e morre no teu abraço.
O mundo todo
feneceria com o teu piscar
a força de suster e destruir do teu olhar
todo esse teu fanatismo profano

de olho a olho
teu deus se esmera
na perfeição

meu deus cristão
enrubesce; estremece
de pelo a pelo,
vibra celeste
na tensão da imagem
num ímpeto ambíguo
de amar as distantes distâncias...
"não há via larga rumo à noite"
nessa noite em que tudo que é belo
retorna como ferocidade


Se
repouso no que detenho
me desânimo

Se
empenho no que destroço
avanço?

mal posso dizer-me nu
despir-me não alcanço
de-fender-me também não posso
De noite na cama
fecho os olhos na penumbra
e fico esperando
distinguir a tua sombra
no escuro perfeito
em mim

espero o mar
trazer prece aos meus ouvidos

disperso a minha mão pelo ar
para dar adeus às coisas fugidias
e ponho-me a sonhar
com a tua boca

NENHUMA DÚVIDA

Meu amigo
não tem segredo nenhum
não tem dúvida
não tem medos

Meu amigo muito amado
não entende nada
do meu mundo

sua ingenuidade simples
sua onipotência sem afetação
me agrada, até mesmo a mim
com meus ares de heroísmo trágico

é que eu não sei como ele combina
o leve e o pesado 

Meu amigo muito amado
não entende nada
de mim

É preciso
seguirmos juntos a estrada
que sonhamos trilhar,
ou a possível...

mas é que, às vezes,
meu amigo
entra sozinho no mar
parece pensativo
parece-me que a dúvida
quase chega a cingir-lhe
o peito
O verbo de Deus: o Verbo
é uma força ambígua
concordo com Epicuro
o mundo nasceu de um desvio
mais tarde Freud descobriu
o verdadeiro nome do clínamen:
sublimação, a grande demiurga,
mas aí Deus já estava morto
não foi Nietzsche quem o matou
apenas reconheceu o cadáver
mas tudo tem que parecer
meio policialesco (a culpa
é uma grande estrategista, e
ao mesmo tempo, escritora de romances
policiais e novelas mexicanas)
o próprio Nietzsche enlouqueceu depois
só de pensar na possibilidade
do mundo que ele propôs
tornar-se realidade
felizes de nós
se ainda não enlouquecemos! 
A FLOR DA PELE

À flor da pele
é um cacto ressequido
pelo sol do desejo
e um grunido de desespero
e horror
algo que pretendia ser feroz,
e que, ao final, é só medo
o que seria sublime
mas nos escapou
diz-se à respeito
de quem está prestes
a sofrer calafrios
que esta é a flor da pele